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Depois de seis décadas,
história da Expedição Kon-Tiki, que tentou contestar teorias sobre
colonização da Polinésia, volta às telas dos cinemas
Paola Bello
Quando o pesquisador norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002) lançou ao
mar, em 28 de abril de 1947, uma jangada inspirada em embarcações
primitivas, poucos acreditaram que as cordas que mantinham suas tábuas
unidas seriam suficientemente fortes para conduzir com segurança seus
seis tripulantes e um papagaio por mais 8.000 quilômetros mar adentro.
Para Heyerdahl, muito além de um atestado de perseverança, os 101 dias
de expedição entre a costa do Peru e o Taiti seriam uma prova
irrefutável de sua teoria de que teriam sido os pré-incas, e não os
asiáticos, os colonizadores das ilhas da Polinésia.
Da experiência de Heyerdahl há mais de seis décadas nasceu um livro, escrito pelo próprio navegador.
A expedição Kon-Tiki
(José Olympio Editora, 280 pg.) foi traduzida para mais de 70 idiomas e
superou a marca de 50 milhões de exemplares vendidos. A expedição
também gerou um documentário, filmado por Heyerdahl e seus cinco
companheiros de viagem, vencedor do Oscar em 1950. Em 2013, a primeira
experiência de Heyerdahl na busca por comprovações práticas de suas
teorias ganhou novamente os holofotes com uma nova versão para o cinema,
que reconstitui com atores a incrível viagem pelo Oceano Pacífico.
Indicado desta vez ao Oscar de melhor filme estrangeiro,
Expedição Kon Tiki perdeu
o prêmio, mas o filme, que estreou nos cinemas brasileiros na última
semana, consegue retratar a ousadia de um pesquisador cuja motivação era
questionar as teorias já reconhecidas pela comunidade científica.
Biblioteca
A expedição Kon-Tiki
A bordo de uma jangada, o cientista Thor Heyerdahl tentou provar sua
tese sobre a colonização da Polinésia. Neste livro, ele conta como
conseguiu sair do Peru e viajar 8.000 quilômetros em 101 dias rumo a uma
nova teoria.
Autor: HEYERDAHL, THOR
Editora: JOSÉ OLYMPIO
As evidências do norueguês — Embora as teorias que
tratam da colonização da Polinésia apontem para diferentes origens,
todas defendem que os desbravadores do conjunto de ilhas saíram de algum
lugar da Ásia. A tese de Heyerdahl surgiu dez anos antes da expedição
Kon-Tiki, quando o pesquisador passava a lua de mel na ilha de Fatuhiva,
no Pacífico. Da viagem exótica resultaram alguns vidros com insetos
para estudos e a decisão de trocar a biologia pela arqueologia. Depois
de um ano passado na ilha, não restavam dúvidas à Heyerdahl: as
similaridades arqueológicas, linguísticas e até físicas dos habitantes
do Pacífico com os sulamericanos não podiam ser mera coincidência.
A região da Polinésia é formada por um conjunto de ilhas no Pacífico que
vai do Havaí, ao norte, à Nova Zelândia, no sul, e de Samoa, no Oeste, à
Ilha de Páscoa, no Leste. As primeiras habitações na região são datadas
do ano 500, e há evidências de que uma segunda leva de migrantes chegou
à Polinésia por volta de 1.100, antes dos navegadores europeus. Essas
levas de desbravadores geraram questionamentos quanto à origem, e foram
elas que inspiraram o norueguês Heyerdahl a apostar que os ameríndios
descobriram a rota para lá muito antes dos asiáticos.
Uma das provas arqueológicas usadas por Heyerdahl é que estes
colonizadores ainda utilizavam artefatos primitivos, feitos de pedra
lascada, bastante diferente das ferramentas encontradas na época no
Velho Mundo. "Apesar da inteligência e da assombrosa cultura, esses
navegantes trouxeram consigo um tipo de machado de pedra e vários outros
instrumentos característicos desse período, e os espalharam por todas
as ilhas em que se estabeleceram", afirma Heyerdahl em seu livro. "Não
havia civilização alguma no mundo que ainda estivesse no nível da Idade
da Pedra nos anos 500 ou 1100 da nossa era, exceto no Novo Mundo",
completa.
Outra evidência utilizada em sua teoria constava nas similaridades entre
as esculturas e as construções em pedra encontradas na Polinésia e no
extinto Império Inca. "Ali (no Peru) vivera um povo desconhecido que
havia fundado uma das mais estranhas civilizações do mundo, até que,
subitamente, esse povo desapareceu, como que varrido da face da Terra.
Deixou enormes estátuas de pedra semelhantes a seres humanos, que faziam
lembrar as de Pitcairn, as das ilhas Marquesas e de Páscoa, e imensas
pirâmides construídas em degraus como as do Taiti e de Samoa", descreve
Heyerdahl.
Há registros que mostram que, nas ilhas da Polinésia, eram cultivadas
algumas plantas típicas da América do Sul, como a batata doce e a
cabaça. Por outro lado, ossos encontrados em sítios arqueológicos nos
antigos impérios sulamericanos provam a presença de galinhas
domesticadas, originárias da Polinésia, antes das grandes navegações.
Para Heyerdahl, eram mais do que coincidências.
A prova final veio quando ele ouviu, já no final de sua lua de mel, a
lenda do deus tribal polinésio Tiki, e viu nela incrível semelhança com
as crenças ameríndias. O rei-sol, venerado pelos incas peruanos,
chamava-se Virakocha, mas também era chamado de Kon-Tiki ou Illa-Tiki,
que significa Sol-Tiki ou Fogo-Tiki. Ele era o sacerdote que os "homens
brancos" citados pelos incas veneravam, e ao qual foram dedicadas as
atuais ruinas nas margens do lago Titicaca. Neste local, acreditava-se
que os homens brancos foram atacados por outros povos e trucidados, mas
Kon-Tiki e seus companheiros mais próximos conseguiram fugir pelo Oceano
Pacífico. "Eu já não tinha dúvida de que o deus-chefe branco Sol-Tiki
que, segundo os incas, havia sido expulso do Peru para o Pacífico pelos
pais destes, era idêntico ao deus-chefe branco Tiki, filho do sol, a
quem os habitantes de todas as ilhas orientais do Pacífico reconheciam
como o primitivo fundador da raça", declara em seu livro. E, em
homenagem a este deus, cuja lenda comprovaria sua teoria, Heyerdahl
batizou seu barco e sua expedição de Kon-Tiki.
Cientista à bordo — O norueguês tinha a teoria, mas
lhe faltavam provas. Depois de ter sido recusada por todas as
publicações científicas que procurou, a tese, escrita ao longo de dez
anos, tendia ao esquecimento. Foi então que Heyerdahl resolveu, ele
mesmo, confirmar sua tese. Em um mês, viajou para o Peru, recrutou cinco
aventureiros, e juntos construíram uma jangada de pau-de-balsa, madeira
típica da região. "Nem um único prego, cavilha ou cabo de arame foi
usado em toda a construção", afirma em seu relato.
Sobre os nove troncos amarrados com corda artesanal, foi posta uma
cobertura de taquaras, amarradas à jangada e cobertas com esteiras
soltas de bambu trançado. "No meio da jangada, mais perto da popa,
erguemos uma pequena cabana de bambu com paredes também de bambu e
telhado de lascas de bambu, com folhas de bananeira encaixadas umas nas
outras, como telhas", descreve em seu livro.
E foi nesta embarcação, réplica fiel das jangadas usadas havia mais de
1.000 anos na região do Peru, que Heyerdahl e sua equipe deixaram, no
dia 28 de abril de 1947, o porto de Callao. Na embarcação, não existiam
remos nem motores, apenas uma vela. A intenção era provar que, se a
jangada seguisse à deriva, levada pelo vento e pelas correntes
marítimas, os seis chegariam à Polinésia. E chegaram. Depois de 101 dias
e 8.000 quilômetros navegados, atracaram nos recifes de corais de
Raroia, no Taiti. A possibilidade do caminho pelo mar estava provada. A
certeza da colonização sul-americana da Polinésia, ainda não.
Saiba mais
THOR HEYERDAHL
Nascido em 1914, em Larvik, na Noruega, Thor Heyerdahl começou a estudar
Geografia e Biologia na Universidade de Oslo em 1933. Em 1937, fez sua
primeira viagem à Polinésia, onde morou, por um ano, como nativo na ilha
de Fatuhiva, no arquipélago de Marquesas. Foi neste período que começou
a desenvolver sua teoria de que a colonização da Polinésia poderia ter
sido feita por ameríndios, em especial devido às similaridades
arqueológicas e às correntes favoráveis do mar e dos ventos. A expedição
Kon-Tiki foi a primeira de suas aventuras. Realizada em 1947, levou 101
dias e 8.000 para ser finalizada. Desta jornada, foi publicado um livro
e lançado um documentário em vídeo, vencedor do Oscar de melhor
documentário em 1951. No ano seguinte, Heyerdahl organizou a primeira
expedição arqueológica para Galápagos e, entre 1955 e 1956, esteve à
frente das primeiras escavações arqueológicas na Ilha de Páscoa. Entre
1969 e 1970, cruzou o Oceano Atlântico a bordo de um barco de papiro e,
em 1978, sua expedição Tigris cruzou o Índico em uma embarcação de
junco. Morreu em 2002, aos 87 anos, de câncer no cérebro.
Fonte: The Kon-Tiki Museum
Contestações — Ao mesmo tempo em que a empreitada de
Heyerdahl e seus cinco companheiros de viagem chamou a atenção para
outras hipóteses de povoamento da Polinésia, as teorias tradicionais de
colonização por asiáticos ganharam fortes aliados. "Nos últimos 30 anos,
em especial, vemos uma explosão de novos dados relacionados à
arqueologia, linguística e bioantropologia, com interpretações sobre as
antigas questões de quando e como os povos entraram no Pacífico e
conseguiram descobrir e colonizar praticamente cada uma de suas centenas
de ilhas", afirma o professor de antropologia e diretor do Laboratório
de Arqueologia Oceânica da Universidade da Califórnia em Berkeley,
Patrick Kirch, em seu artigo
Peopling of the Pacific: A Holistic Anthropological Perspective.
Nascido no Havaí, Kirch dedicou grande parte de sua carreira ao estudo
dos indícios históricos e arqueológicos da Polinésia, buscando a
integração com registros linguísticos e bioantropológicos. Segundo ele,
uma das evidências de estudo mais consideráveis é a presença de uma
série de objetos cerâmicos chamados de Lapita, encontrados na região
entre Nova Guiné e Bismarck. Embora existam estudos que sugerem que a
Lapita tenha sido desenvolvida localmente, há vários indícios que
apontam que ela foi introduzida na região a partir da Ásia.
Algumas das teorias defendidas por Kirch batem de frente com o que foi
proposto por Heyerdahl. Enquanto o norueguês defendia como evidências da
colonização sul-americana a existência de batata doce e babaça na
Polinésia, o havaiano defende o oposto. "A maioria dos arqueólogos nunca
levou as ideias de Heyerdahl à sério sobre a chegada nos ameríndios ao
Pacífico nos tempos pré-Colombo. Entretanto, a proposição reversa — que
os polinésios navegaram para as costas da América do Sul, fazendo
contato com as populações de lá — parecem cada vez mais prováveis, e têm
provocado debates recentes", defende Kirch em seu artigo.
A batata doce, por exemplo, era cultivada em grandes quantidades na
parte leste da Polinésia, em especial na Nova Zelândia, Havaí e Ilha de
Páscoa, antes dos primeiros contatos com os europeus. "É inteiramente
plausível que ao menos uma viagem de canoa rumo à América do Sul
conseguiu estabelecer contato e retornar com tubérculos de batata doce,
que acabou entrando no complexo de horticultura da Polinésia", defende
Kirch. "O nome polinésio para batata doce, kuumara, é, quase sem dúvida,
um empréstimo de algum dialeto sulamericano onde o termo para a
plantação é kumar ou alguma variante similar", completa. Para ele, a
cabaça, presente nas Américas há mais de 9.900 anos, seguiu o mesmo
rumo.
A presença da galinha na América do Sul antes de Colombo, para Kirch, é
outra evidência das navegações polinésias. "Há registros de ossos de
galinha na região do El Arenal, na parte sul do Chile, uma evidência do
contato dos polinésios e introdução da (espécie)
G. gallus",
ressalta. "A data reportada, estimada entre 1321 e 1407, coincidiria com
o fim do período extensivo de viagem dos polinésios, mas certamente é
anterior à ocupação espanhola."
Questionamento genéticos —
Para além das evidências arqueológicas, Kirch e sua equipe também
recorreram à genética para tentar colocar um ponto final nesta
discussão. Segundo Kirch, uma das principais descobertas neste campo é
que tanto polinésios quanto ilhéus do sudeste asiático compartilham uma
característica bastante incomum: deleção de nove pares de base no DNA
mitocondrial. Esta descoberta reforça a teoria de colonização da região a
partir da porção sudeste da Ásia.
Mesmo com esta evidência, os noruegueses não se renderam facilmente.
Outro pesquisador se dispôs a aprofundar os estudos do conterrâneo
Heyerdahl. Desde 1971, o imunologista Erik Thorsby busca compreender de
onde, afinal, surgiram os polinésios. Suas investigações, como se pode
prever, começaram pelos escritos de Heyerdahl.
"Meu interesse começou quando li alguns trabalhos de Thor Heyerdahl e
combinei com meu conhecimento, como imunologista, sobre o complexo HLA (
Human Leukocyte Antigens
- em português, Antígenos de Histocompatibilidade Humano), um complexo
de genes que se tornaram uma importante ferramenta de investigação
antropológica", explicou o pesquisador em entrevista ao site de VEJA.
Sem ter a resposta para seus questionamentos, Thosrby e sua equipe
retornaram à investigação das mesmas amostras em 2006, já com recursos e
equipamentos mais desenvolvidos. E só então começaram a ter resultados
satisfatórios. "Estas investigações de genética molecular demonstraram,
pela primeira vez, alguns traços genéticos antigos de ameríndios em
habitantes da Ilha de Páscoa. Não conseguimos estabelecer de onde eles
vieram primeiro, exceto que os resultados promoveram evidências muito
fortes de que deve ter ocorrido antes dos comércios de escravos peruanos
em 1860", comemora.
As investigações de Thorsby também sugerem, mas não provam, que a época
da chegada dos ameríndios na Polinésia aconteceu antes do descobrimento
da região pelos europeus, em 1722, mas que também foram depois que as
ilhas estavam habitadas. "Atualmente, acredito que os primeiros
habitantes da Polinésia vieram do oeste, por exemplo, do leste da Ásia",
afirma. "Os resultados de nossas investigações são completamente
compatíveis e suportam esta ideia. Se foram ou não sul-americanos os
primeiros a chegar lá, ainda é cedo para concluir", completa.
A conclusão certeira pode ser alcançada em breve. "Para responder com
mais exatidão quão cedo os ameríndios chegaram à Polinésia, precisamos
investigar o DNA de antigos ossos na região. Já estamos fazendo estas
investigações, mas os resultados não estarão disponíveis antes do final
deste ano", afirma Thorsby.
De uma coisa, o segundo norueguês não tem dúvida: Heyerdahl pode ter
errado, mas não completamente. "Sua teoria, mesmo que muito controversa,
levou a um enorme interesse na área. Sem Heyerdahl, (a investigação das
origens dos polinésios) poderia nunca ter começado, ou começado muito
mais tarde", destaca. "Entre suas maiores contribuições está ter
mostrado ao mundo que os oceanos nunca foram barreiras, mas caminhos."
Link:
http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/um-noruegues-contra-a-historia