Arqueólogos descobrem misterioso cemitério do século 17 em
Recife. Enterrados em uma região inabitada à época, os esqueletos de
homens jovens ainda não têm identidade conhecida e levantam variadas
hipóteses sobre sua origem.
Por:
Sofia Moutinho
Publicado em 01/08/2013
|
Atualizado em 01/08/2013
A história por trás do cemitério descoberto ainda não é
conhecida. Por enquanto, os pesquisadores se dividem entre as hipóteses
de que os esqueletos sejam de judeus, soldados ou homens do mar. (foto:
Fundação Seridó)
Trinta e oito esqueletos masculinos estendidos lado a lado sem roupas
mortuárias ou artefatos. Foi com essa situação que uma equipe de
arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fundação
Seridó se deparou ao fazer a escavação preventiva de uma área da favela
de Pilar, em Recife, onde será construído um complexo habitacional do
governo do estado. A identidade e o grupo cultural dos corpos ainda não
foram desvendados pelos pesquisadores, mas suscitam diferentes hipóteses
sobre sua origem e a evolução da cidade a partir do século 17.
A maioria dos esqueletos foi encontrada com os braços cruzados sobre o
peito, o que indica que o local provavelmente era um cemitério
organizado. Os corpos também não apresentam vestígios de roupas. Os
arqueólogos acreditam que tenham sido enterrados com uma mortalha de
tecido fino que já se degradou.
Matos: “Pela formação da arcada dentária, é muito provável que se trate de caucasianos, de origem europeia”
O achado veio justamente quando os pesquisadores da Fundação Seridó
procuravam por um antigo cemitério de escravos que se acredita que tenha
existido na região. A descoberta logo suscitou especulações entre a
população, mas os pesquisadores ressaltam que ainda é cedo para fazer
afirmações sobre quem eram os mortos.
“Temos certeza de que se trata de um cemitério porque estão todos os
esqueletos na mesma posição, com crânio e bacia voltados para o leste, e
no mesmo nível de profundidade, mas não podemos fazer muitas outras
afirmações”, disse a arqueóloga Manuela Matos durante a apresentação do
estudo na
65ª Reunião Anual da SBPC. “Pela formação da arcada dentária, é muito provável que se trate de caucasianos, de origem europeia.”

- Foram encontrados 38 esqueletos de homens jovens, 14 deles já estão sendo analisados. (foto: Fundação Seridó)
Uma das possibilidades levantadas é de que o local tenha sido um
cemitério de judeus, que são tradicionalmente enterrados sem roupas. A
hipótese ganha força por causa de registros históricos que indicam uma
grande ocupação de judeus na região em torno no século 17.
Mas existe ainda a chance de se tratarem de trabalhadores do mar ou
soldados. A ideia se baseia na grande quantidade de fraturas de ossos
que poderiam estar ligadas a ambas as profissões. “Um dos esqueletos tem
fratura da clavícula cicatrizada e quatro apresentam escoliose, o que
indica que carregavam peso”, disse o bioarqueólogo Sérgio Monteiro, da
UFPE. “Outro tem um tumor ósseo na tíbia, provavelmente decorrente de
queda e batida, e os dentes apresentam sinais de uso de cachimbo.”
A teoria dos soldados tem ainda a seu favor a ausência de
vestimentas, que poderia ser explicada pelo reaproveitamento dos
uniformes e pelo fato de os sepultamentos estarem próximos do antigo
Forte de São Jorge, construção bélica do século 16.
À margem
O local onde o cemitério foi encontrado era conhecido como Fora de
Portas durante o início do século 17, por ficar além das portas da
cidade de Recife. Os arqueólogos e historiadores acreditam que o
cemitério seja daquela época porque está em uma camada mais profunda que
os alicerces das primeiras casas construídas na região, que liga Recife
à Olinda.

- O mapa mostra a
localização do cemitério em relação ao local onde ficava a porta da
cidade de Recife e o Forte de São Jorge. (foto: Fundação Seridó;
modificado de MENESES, José Luis, Atlas Histórico Cartográfico do
Recife)
“Esse trecho do bairro não era habitado nos séculos 16 e 17, as casas
só começaram a surgir depois de 1680, quando o Forte de São Jorge foi
transformado em Igreja”, comentou o historiador Antonio Moura, da UFPE.
Moura chamou a atenção para o fato de não haver registros desse
cemitério em documentos da época. O historiador acredita que a memória
dos sepultamentos pode ter sido esquecida propositalmente, por interesse
de algum grupo. “A memória dos enterros desapareceu em algum momento e o
local passou a ter moradias”, apontou.
Os pesquisadores acreditam que a memória dos sepultamentos pode ter sido esquecida propositalmente
Já a historiadora Socorro Ferraz, da UFPE, pensa diferente. Segundo
ela, a região era habitada por pessoas pobres, que, sem opções, não se
importariam de ocupar o cemitério. “Esse lugar sempre foi ocupado por
classes menos abastadas, fora das portas da cidade moravam os pobres, o
‘povo’”, disse. “Os ricos não querem morar onde foi um cemitério, mas,
para os pobres, que não têm onde morar, isso não é uma questão.”
À espera de mais dados
As dúvidas ainda são muitas. Mas os arqueólogos esperam obter mais
respostas com a datação e a análise do DNA dos esqueletos, que poderão
determinar a etnia dos homens e a época em que viveram. Para a
arqueóloga que chefiou as escavações, Gabriela Martin, da Fundação
Seridó, o caso ilustra bem o fazer arqueológico.
“As pessoas pensam que a arqueologia é isenta por se deter em dados
materiais”, refletiu. “Mas, na prática, existem muitos interesses
ideológicos e políticos envolvidos na interpretação dos dados.”
A pesquisadora acredita que a comunidade judaica esteja torcendo para
que os esqueletos sejam do seu povo. Por outro lado, a comunidade
afrodescendente também teria interesse que o cemitério fosse de seus
antepassados. “Mas temos antes de tudo um compromisso com a verdade e,
para que a subjetividade seja cada vez menor, temos que nos apoiar nas
outras ciências, como a química e a física envolvidas nas análises de
DNA.”
Sofia MoutinhoCiência Hoje On-line
Link:
http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/reuniao-anual-da-sbpc-2013/enterrados-e-esquecidos