Professor
do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP),
Eduardo Góes Neves vem regularmente à região amazônica. Em Manaus,
coordena o laboratório de arqueologia que reúne milhares de peças
retiradas da área de influência do gasoduto Coari-Manaus.
Relator
do projeto que propôs o tombamento do Encontro das Águas no Conselho
Consultivo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), ele
voltou a defender arduamente a proteção da área. Leia a seguir trechos
da entrevista:
Como o senhor avalia o desenvolvimento dos estudos arqueológicos na Amazônia e no Amazonas?
Se
a gente olhar na Amazônia percebe que outros Estados estão com as
perspectivas mais avançadas do que no Amazonas. Na Universidade Federal
do Pará (UFPA) temos uma pós-graduação em Arqueologia. Temos um curso de
graduação na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em
Santarém. Em Rondônia a gente tem uma graduação e no Acre, o governo
criou uma área de arqueologia ligada à Fundação Elias Mansur. Aqui no
Amazonas, por uma razão misteriosa, que não consigo entender, o avanço
da arqueologia é mais lento do que outras partes do Brasil da região
Norte. O que é uma pena. No Amazonas, o único laboratório que está bem
organizado é o do Instituto Mamirauá, em Tefé.
Temos duas instituições públicas, Ufam e UEA. O que elas desenvolvem?
A
Ufam não abre vaga para arqueólogo. Temos hoje dois professores
visitantes. A UEA criou um curso que vai acabar. Nunca teve uma sede.
Durante quatro anos funcionou numa sala emprestada de uma escola
municipal em Iranduba. Nunca mais feito um segundo vestibular. O curso
funciona na base da boa vontade.
Como surgiu o laboratório de arqueologia que o senhor coordena em Manaus?
Quando
a Petrobras fazia o licenciamento do gasoduto Coari-Manaus, o Iphan não
queria conceder autorização porque já tinham experiência (ruim) prévia
no poliduto Urucu-Coari. Alguns sítios foram destruídos ali e algumas
peças foram guardadas em Belém. As coleções do Amazonas não ficavam no
Estado. Por isso, o Iphan não queria licenciar. Então fizemos uma
proposta: montar um laboratório nesta casa, em Manaus. Ao longo do
caminho, a gente encontraria um lugar para a guarda definitiva.
Formalmente, a guarda é da USP, mas não queria fazer isso, levar para
São Paulo. Temos que fortalecer a arqueologia aqui no Estado, criar
condições para que as coleções fiquem aqui. Há materiais científicos (no
acervo). Tem gente que fez mestrado e doutorado em cima disso.
O senhor, anos atrás, tentou construir um centro de pesquisa em Iranduba, que não avançou. O que aconteceu?
Sim,
havia um recurso da Petrobras que seria para construir um centro de
arqueologia no Amazonas, inicialmente ligado à UEA, em Iranduba. Isso
foi no primeiro mandato do prefeito Nonato Lopes. Mas ele nos deu um
termo de desapropriação que era falso. O
dinheiro acabou sendo usado para a reforma do Palacete Provincial, em Manaus.
Por que Iranduba foi escolhida para receber esse Centro?
Iranduba
é uma das regiões mais ricas da arqueologia brasileira e na América do
Sul inteira. É uma grande mesopotâmia porque tem dois rios, o Negro e o
Solimões. Com a ponte, a vida da cidade vai mudar de maneira
irreversível. A tendência é que fique mais ligada a Manaus, o que é
muito bom para quem mora lá, e para Manaus também. Mas vai ter um
processo de favelização de um lado, e construção de condomínio fechado
de outro. A cidade vai ficar com identidade diluída.
De que forma o município ganharia com este projeto?
A nossa ideia era aproveitar o
patrimônio arqueológico,
criar uma espécie de identidade, como em Icoaraci, perto de Belém (PA),
onde há atividade dos oleiros, que fazem réplicas de cerâmica
marajoara. Iranduba já tem olaria. A gente poderia tentar fomentar, por
exemplo, uma produção de réplicas de peças arqueológicas para vender em
turismo. Mas o prefeito nunca teve interesse, nunca viu dessa maneira. A
Petrobras iria pagar. A prefeitura iria doar o terreno. Seria
maravilhoso. Teria curso de graduação, centro de pesquisa com museu. Só
que muita gente não quis.
Qual foi o impedimento para a construção do Centro?
Infelizmente
aqui no Amazonas, os manauaras querem tudo para si e nada para o
interior. Mesmo em Iranduba, que é do outro lado do rio. Existe uma
elite cultural aqui de Manaus que nunca gostou dessa ideia. O projeto
tinha um perfil mais democratizante, de acesso, trabalhar com os
moradores locais, os caboclos. Com a ponte, esse patrimônio está muito
ameaçado.
Como os estudos da arqueologia podem ajudar a entender melhor a Amazônia?
Hoje
em dia a questão ambiental é política também. Uma das regiões mais
complexas é a Amazônia. A pergunta é: o que fazer com a Amazônia? Vamos
criar gado, plantar soja, montar telefone celular? Quais são os
projetos? O mundo inteiro olha para nós. A arqueologia tem a ver com o
passado, não com o futuro, mas ela mostra para a gente que durante anos
havia um mito, e muita gente ainda acredita nisso, de que na Amazônia
não tinha ninguém, que é um ambiente é difícil para a condição humana. A
arqueologia mostra justamente o oposto. Aqui tivemos populações
numerosas.
É o caso de Iranduba?
Em
Açutuba (Iranduba) existem três quilômetros de sítio arqueológico na
beira do rio. Era uma cidadezinha ocupada. A gente encontra peças de
cerâmica maravilhosas, de pedra lascada. É um tesouro de informações.
Temos também a terra preta. São solos estáveis. Qual o problema que
temos na agricultura tropical? O pessoal coloca adubo, fertilizante, mas
chove muito, e depois de três e quatro anos isso é tudo lavado. E a
terra preta é um solo que não perde a sua fertilidade. Tem estabilidade
muito grande. Tem gente do mundo inteiro tentando entender como
funciona, para tentar criar alguns parâmetros para a agricultura.
O senhor acha que empreendimentos desenvolvidos na região, como a Ponte Rio Negro, podem destruir esta riqueza?
As
terras pretas vão ser destruídas. Sou muito cético. Sabe por quê?
Porque elas estão ou em locais onde o pessoal faz roça, ou então nos
lugares bonitos, na beira do rio. Vão fazer um monte de condomínios ali.
Um
dos principais argumentos dos defensores das grandes obras é a
necessidade do progresso e do desenvolvimento. É possível conciliar
desenvolvimento e proteção?
Ninguém
pode ser contra o progresso. Trabalho há 16 anos no Iranduba e cansei
de esperar balsa. A ponte é maravilhosa, mas as pessoas têm problemas de
saúde. O mundo está caminhando para uma perspectiva de progresso com
equilíbrio ambiental e social – o que não aconteceu aqui. Há uma elite,
muita gente que não é nem daqui que acaba enriquecendo e não tem
compromisso. Acho que, no caso da ponte Rio Negro, teria que haver um
programa de acompanhamento de patrimônio arqueológico de Iranduba. Temos
bases de dados. Definir as áreas de patrimônio, pensar em zoneamento.
Tem que fazer direito. Só que fazer direito não permite fazer falcatrua.
Como é o seu trabalho na região amazônica?
Fiz
meu doutorado na região do Alto Rio Negro, onde estou retomando alguns
trabalhos. Vou continuar aqui. Tenho um projeto em Tefé, na região de
Mamirauá, de mapeamento arqueológico. Outro projeto é no baixo rio
Negro. Agora estou também no Alto Madeira.
Como o senhor descreve seu atual trabalho nestas áreas?
Quero
entender as relações das populações da Amazônia com o meio ambiente ao
longo do tempo. A minha ideia é criticar a noção meio racista de que a
floresta não é um lugar bom pra se viver, de que quem vive na floresta
está condenado ao atraso. Estou tentando demonstrar o contrário. Que o
Amazonas é propício para a ocupação humana, que a gente tem evidências
que as populações vivem aqui há milhares de anos e que existem modos de
vida adaptada à floresta.
Como o senhor insere a arqueologia feita na Amazônia na arqueologia mundial?
A
arqueologia amazônica, no âmbito da arqueologia das Américas, é uma
área de destaque. O que me deixa frustrado é ver (claro que existem
pessoas bem intencionadas) que institucionalmente o Amazonas não
consegue dar conta da importância disto. É uma questão política, de
falta de interesse.
Se fôssemos fazer um mapa sobre a riqueza arqueológica do Amazonas, quais as áreas que o senhor apontaria?
Toda
a região. Não tem lugar que você não vá e não encontra material
arqueológico. Mas têm algumas áreas realmente impressionantes. A região
do Encontro das Águas é interessante. A região de Parintins, Silves, o
baixo Amazonas todo é muito rico em cerâmicas de períodos antigos. É uma
fronteira entre Pará e Amazonas. Já foi uma fronteira cultural
importante.
Qual a explicação para esta riqueza?
Você
está perto na boca do rio Madeira e da boca do rio negro. Os dois
maiores afluentes se encontram aqui nessa região. É uma hipótese muito
antiga. Sempre foi uma reunião de trânsito para as pessoas e de contato
cultural. Mas há também em Borba, Humaitá, o Alto Solimoes.
Qual a parcela de Manaus?
A
última contagem que a gente tinha feito apontou mais de 40 sítios só na
zona urbana de Manaus. Temos o caso emblemático do sítio Nova Cidade,
que foi destruído pela Suhab (Secretaria Estadual de Habitação). Em
outros lugares do mundo com essa riqueza, o local estaria sendo usado
para atrair turistas. O que me entristece é ver Manaus indo pro mesmo
caminho que São Paulo foi.
O senhor foi relator do tombamento do Encontro das Águas. Como está esse processo?
Vejo
assim: de um lado, a Coca-Cola e a Vale do Rio Doce. De outro,
ribeirinhos, alguns cientistas e intelectuais e sociedade civil. Se a
gente desce da Panair até o Encontro das Águas é uma tragédia. Tem lá o
Chibatão, Passarão, Usina do Mauazinho, depois tem a Ceasa. Nos últimos
30 anos a gente destruiu um dos lugares mais bonitos do mundo, o rio
Negro, por causa de interesses econômicos de curto prazo. E o Encontro
das Águas é a última encarnação desse processo. Fazer um porto ali
próximo é o equivalente uma pedreira no Pão de Açúcar e uma barragem nas
Cachoeiras do Iguaçu. Numa nação globalizada, o país precisa ter
símbolos. O Encontro das Águas é um símbolo da miscigenação. Tem valor
simbólico, afetivo, histórico.
O fenômeno também está associado aos estudos da arqueologia e da história?
Aqui
na Amazônia a gente tem uma dimensão do patrimônio cultural. A gente
tem ideia de natureza intocada. A arqueologia mostra que essa natureza
foi modificada. O Castanhal não é natural, é cultural. Quem plantou foi
um índio, um caboclo. A terra preta não é um solo natural, mas cultural.
Foi atividade humana. O patrimônio natural e cultural é muito ligado. O
Encontro das Águas é maravilhoso. É um monumento natural, mas é uma
paisagem cultural. Cercado de sítios arqueológicos. Isso tudo compõem um
quadro que mistura natureza e cultura. É uma visão moderna, sofisticada
sobre o patrimônio.
O que o senhor pensa da proposta de criação de um porto de carga para aquela área?
Seria
maravilhoso, generoso e benemérito destinar aquela área para de uso
público de lazer para uma população da Zona Leste que não tem nada. Vem
muita gente para a Copa do Mundo. Vão mostrar um porto no Encontro das
Águas para os visitantes? Vamos continuar enfeiando um dos lugares mais
bonitos do mundo?